A Morte e a Poesia

Fantasmas gritam os ares de rosa das cidades
“Que são as nuvens senão brancos lamentos?
Que somos nós, pecadores
se não pensamentos?” Fantasmas uivam
as clareiras e as cabanas
abandonadas dos lenhadores felizes que descansam…
Quem precisa de fogo, labareda com a ponta azul,
quando o mundo arde como um poente?

“É o fim, um fim tão único;
gritai fantasmas e lençóis, que acabamos
e somos todos livres de viver!” Bramidos
dos presos à morte,
ansiedade e tremores
os pavores
da sua sorte!
Ah, que fácil é morrer sem ter sido
qualquer pecado atrevido
que brutal se atreveu
a tentar por força ser Deus!

Mancham as chamas o chão de nossa mãe!
Queimada a Babilónia, que fazem?
Viram-se, em fúria, para um pajem
e partem as correntes do Além!

Memento Mori!
O útil cai, o tentador rebenta
privado de senso, oculto de privação
nas suas muralhas encerrado. Há
um ponto ao poema? Não,
mas razão para escrever? Quiçá!

Alguma falta de praias.
Rebenta no pavimento a água das marés
da memória de um areal
quente nas avenidas. O artifício do Sol
é a felicidade de quem anda
fingindo ser marujo na calçada e cai
bêbedo, pela loucura do sal enfeitado,
na neblina soberba dos bancos das tabernas…

“Merda, que somos muitos,
para quê tanto ébrio? Para quê
tanta boca no vinho se há tão pouca verdade,
meus irmãos?” Fica a pergunta
de um tal sábio para outro,
num tal banco que para outro olha,
inquisidor e mortal. De fogo aceso nos
olhos, viu há muito a blasfémia de vomitar
o sangue do criador do mundo e dos mundos…
Merda, que são todos ébrios,
mas nenhum responde com seriedade
à bebedeira, e não leva a morte
com valor dos seus goles.

O forte fedor dos que acreditavam
e se pavoneavam nos jardins
invadiu as ruas invernais e os bairros
fogem de si mesmos com medo
dos cheiro pungente dos mortos!
Memento Mori nas suas narinas destruídas!
Ninguém abra as janelas, que pelo
peixe também não se chora…

II

Arre, burro de carga do Além
“Porque vieste se a minha hora é
quando me voltar o filho da guerra?!” O velho
órfão de filho, já fantasma por direto,
arregaça as mangas ao cavaleiro, trava
as ferraduras no óleo quente do da sua infância. Não
há guerra nem rapaz, há pó e há um velho
forreta com o tempo, até o da Morte,
pois ninguém se lembraria dele.

Os portões cairão do Alto, mas o
teu filho descansa no fedor e no bolor
de uma mansão mais Antiga e mais humana! “Todos
morremos no Hades, sucumbindo
ao desejo de ser pobre entre os homens,
mesmo reinando entre os mortos!” o escudo não
te foi suficiente… Ainda morreste,
ainda te foi dado o fim no Hades.

As portas douradas trazem só fantasmas…
O eterno crepúsculo grita por si mesmo
sem precisar de lençóis ou fações
de espíritos ainda não esquecidos! Larga
a saudade do bolor que não pensa
mais em ti! Larga-a e afoga-te,
como os outros descontentes,
que há bastante mar, mas tão pouca verdade!
Os róseos tons da Aurora não
pintam a novidade,
pois que os viste a morrer…
E repetem-se…

Memento Mori!

III

Um cadáver olha um milheiral sofrido
repleto de podre
por um brilhante inferno atingido
que deixou o fazendeiro pobre
este corpo pelo inverno batido
A forma apodrece sem dó nem divindade
vai perdendo o sentido
já perdeu a rima e há de morrer
a estrutura como já se acabou a pontuação

Será prosa sem razão Não que é
poesia porque é estúpida

Vale a pena outra estrofe?
Por mais que a ordem volte, o
espetro niilista da sua falta
impera sobre o medo e dá à
regra mais vontade de destruir-se…
A uma nova linguagem! Parvos dos futuristas!

1, 2, 3… Números e sinais
em decadência da poesia… Beberam
da pólvora e encharcaram a
literatura com a sua falta de bom senso,
mas destruíram – oh, que finalmente
os destruíram – os fantasmas do passado…
A cheia continuou, mas sem
espírito… PUM! TAZZ! CATRAPUM!

PÓLVORA E GRITOS SANGUE E GUERRA SLOGANS EXPLOSÃO POESIA SEM ORDEM NEM PIEDADE PIADAS DOS PARVOS GRITOS GRITOS GRITOS MORTE GUERRA PUM PUM PUM MÚSICA DAS TRINCHEIRAS RELINCHAR DAS ARMAS MILHEIRAL EXTINTO CORPO LONGE DA MEMÓRIA

vira-te para a calma
e tira os gritos às palavras do início
pois que nunca ouviste um início
sempre foste, a alma
à beira do precipício
a rima regressa nas diretrizes
um guerreiro que lambe as cicatrizes
os fantasmas porém não voltarão
arrumados na campa da pontuação

Apodrece o verso. Justificado, o texto formaliza-se, veste um fato e vai fumar para as ruas de Paris (fica-se mais específico, porque assim se contam estas histórias). A prosa encandeia-se de propósito quando põe os olhos bravos numa mulher que a resista, ou quando mata de uma assentada, e por dinheiro, ganho ou vontade, outro qualquer ser humano que não tinha razão de morrer que não fosse a narrativa. A narrativa, nascida da poesia mais bela e antiga (os Cantos da beleza e astúcia dos heróis) é a meretriz sacrificada da poesia à prosa… Os poemas épicos deram ares a filas e filas e mais filas de letras que cansam os olhos e dão às mãos de quem escreve um medo da mortalidade…  A poesia morre: já não querem saber dela se não se apresentar nua e vendida a sentimentalismos, ora do pessoal e macabro – o profundo e íntimo testemunho de uma alma – ora do crítico – o repetido e excessivo grito de protesto que nada acrescenta e que só faz barulho dos túneis do tempo, porque ecoa corajosamente o que já foi antes e melhor gritado. Mas ah, que querer voltar a fazer poesia – querer erguer catedrais onde já não se reza ou se apreciam História ou cultura – é o pecado natural dos que se ainda rebelam nos versos!

Arre, que volte!
Que a poesia se solte!
Que o verso de novo se revolte!
Sem razão e barato,
imortal devaneio caricato!
Ergue o estandarte
desse teu inferno!
Levanta a arte
e faz-te de novo eterno!
Oh, verso amado
choram-se rios e mares
por ouvir os teus cantares…
Irra de não teres voltado!

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