A calamidade de uma rua

 A calamidade de uma rua rodeia o protagonista deste drama silencioso, este que fuma na humidade atmosférica toda a vida seca de aspirações que vive fora das linhas vápidas de um caderno e do território indefeso que existe fora dos braços de um amante... (A ação decorre de forma lenta, pouco ou nada acontece), os passos longos e pesados são as didascálias deste tão pessoal tormento, as botas negras, os grandes solilóquios do escocês e do dinamarquês - culpa e incerteza - dão texto à falta de voz deste protagonista, que ficará em silêncio durante a restante representação. 

Que uso haveria na sua fala, afinal? Funciona melhor assim, o olhar e as botas falam por si, os primeiros janelas para o interior da grande máquina que os faz mexer através do segundo; cordas vocais neste monumento seriam propaganda desnecessária à hegemonia do Estado humano. Não é preciso discurso, é preciso apenas que continue a caminhar e a caminhar e a caminhar, com os mesmos olhos e as mesmas botas de sempre e que nunca experimentou antes, mas que nunca lhe serviram. Qual é o drama? As contradições, o texto é confuso porque é assim que se faz a arte: muito simples, o objetivo é ser-se vago e parvo, é retirar mais e menos significado possível destas palavras vazias. Estas que, neste caso, nem palavras são, só o ruído molhado das solas no pavimento alvejado pela chuva. 

A calamidade de uma outra rua; um protagonista que persiste, sem nome, sem género, sem corpo, mas com pernas e olhos para poder andar e ver. O caminho é estreito (pudera, é uma rua antiga, um precipício de História e conservadorismo), o chão âmbar, marcado pela mão de um paupérrimo artesão, de um qualquer trabalhador que se dedicou à sua construção não pela vaidade ou excelência, mas pela necessidade tão humana de andar. Salve-se a memória desta figura anónimo e coletiva, que deu  os primeiros passos para que o pudesse também fazer o protagonista desta obra, a sua vida. A rua é banhada pela Graça da chuva, como foi a outra, e vê-se o protagonista a fumar um cigarro repentino, debaixo do abrigo de uma obra nunca terminada, comemoração imperfeita da mão operária que ergueu este lugar irreal. 

Que horas serão? Sabe-se que é de noite, mas o Sol leva com ele a atividade da população local com o seu suicídio diário e não existem relógios neste pedaço de nostalgia falsamente ancestral da Europa. Perdeu-se no tempo, finalmente, com as vagas luzes da lua e do isqueiro a servir de lanterna e telemóvel sem bateria a certificar-lhe que não terá, por um qualquer acidente cósmico, dado por si numa época longínqua e inexistente. O que existe agora é esta rua, este tejadilho, este cigarro e as suas tragédias: as botas que lá o levaram e os olhos com os quais apreende este cenário irreal. Derrotado, o protagonista sem passado deixa-se pendurar fora do tempo, com o calor do fumo nos dentes amarelos e mal tratados por uma história incógnita. 


Comentários