A arte do barro

Fazem-se ânforas de lágrimas porque dura o gelo, ou convencem-se as gentes que se ergue um mundo a partir de gotas? Haverá uma arte, porventura, do mais frágil líquido que escapa da mente humana em necessidade de apanhar ar... Terá seguimento este sentimento no momento artístico? 

O caco que se volta a construir é contextualizado no saber geral, o código em que fala não só quem chorou, mas os restantes oleiros e quem usa a loiça, partida ou não. Virão uma peça de porcelana valiosa e destemida, contadora da mais humana das histórias, ou atirar-se-á para cima dela um arroz branco, desumano e comercial? Vale o passado de reconstrução que existe fora da cerâmica o estatuto que a coloca superior à sua utilidade? As lágrimas que não são pintadas na jarra antiga não deixaram nódoas; será sensato chorar pelo que evaporou?

E quem chorou? Que se faz do oleiro cujo barro é a alma que terá heroicamente moldado a sua derrota e pintado a sua vida dura no vaso que segura, triunfante, nas suas mãos? Perguntar-se a razão do choro parece sensato, mas não se faz o sustento do martírio? O mérito do oleiro e seu talento reduzem-se ao fluído que lhe cai dos olhos, o fogo que ardia na sua alma no momento em que (se pensa que) terá concebido a sua obra? 

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