O tempo

Da esperança inacabada do meu quarto, sussurram o passado e o futuro, um tão efervescente como o outro, irmãos antagónicos e separados pela imortal e teimosa parede do agora. Convergem as suas mensagens no cimento e nos tijolos que os separam; a tradição toca sonatas ao pessimista amanhã, que as vai apreciando sem a noção do ódio se assentar no seu tímido coração. 

Os livros lançados por cima do muro são lições apreender e emendar, os declives na moral dos velhos intimidam o futuro, tão novo que nasce assim a cada momento sem memória qualquer que não esteja na ancestral muralha da História, que seu irmão, mais velho que a velhice que assombrava os poetas helenos (o seu irmão que é a própria velhice, ou pelo menos as suas memórias e a sua nostalgia, antiga alegria perdida de um homem que já soube o que é sorrir): este presente que os une é mais ponte que muralha, mais lição escolar que castigo de não comunicar. 

O agora: amoral e imortal livro em permanente edição, a verdadeira obra de arte que nunca acaba, pois nunca acaba o tempo. Haverá sempre mais e mais para se escrever, mais e mais para se fazer enquanto houver tempo e se moverem os astros, ou se moverem as mentes capazes de escrever sobre os astros. 

O agora é um poema de apenas um verso, breve e editado a cada instante em que qualquer corpo decide pestanejar. Os versos que saíram desta poesia acabaram no passado, aquele extenso poema infinito de todo o tempo que já foi e que já se sonhou... O futuro tem a poesia sonhada pelos bretões, aquela perfeição indignada e martelada pela sua materialização no presente, que será imortalizada ao tornar-se uma parte imperfeita do enorme passado. 

 

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