cinzeiro

acende-me um cigarro,
não fumo... mas dá 
glamour ao poema
o corpo fluído e cinzento
daquela mancha da morte, 
nada mais;  será isto
erótico? sensual? culto? 
cala-te, religião do perigo,
fama do fatal...

o poema...era sobre quê?
enrola-me tabaco... não, 
não fumo! já disse... 
medito pomposamente
na personalidade e 
seu culto, catastrófica 
religião da revolta 
contra o bem-estar... 

haverá poema? ou lamúria?
não há forma alguma,
haverá versos? deixa-me, 
quero fumar sossegado...
que outro o carregue, 
crucifixo e coroa originais...
não me dês mais pecado, 
que padeço do martírio
do fumo... 

será a chama? 
se queima o cigarro, 
queimará a alma? onde 
um existe, um outro segue... 
(falsa causalidade... ?)
não me chateies... 
nunca comprei um maço...

mas na trama destes versos
sou viciado em nicotina; 
(artista-estátua estilhaçado...
cacos de um todo, 
belos poemas!)

e o tabaco que te pedi?
bom amigo que me foste sair...
não dá para ver que não fumo?
traz-me o martírio do vício, 
não me faças tossir...

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